segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A Internet e os relacionamentos

Percebe-se o quanto a Internet vem revolucionando as modalidades de relação, tanto no aspecto econômico quanto social.
Se por um lado a Internet pode ser um meio facilitador, permitindo que possam ocorrer encontros que de outra forma dificilmente ocorreriam, por outro lado pode haver armadilhas reais no mundo virtual.
A Internet trouxe consigo a era do imediatismo, tudo precisa ser processado em tempo real e com isso, falta tempo para a simbolização, capaz de viabilizar a elaborar que daria um significado ao sentimento.
Um exemplo disso é a seguinte frase, ilustrada em uma rede social:


Em outras palavras: não quero gastar tempo nem energia para processar e elaborar o sentimento de relacionamentos que não deram certo. Com direito a excluir o histórico, ou seja, sem ao menos procurar compreender o quê foi que não funcionou.
Essa frase contextualiza muito bem a demanda repleta de imediatismo, sem espaço para a diferença e a tolerância, necessárias em um relacionamento pautado na realidade.
Se existe um excesso de imaginarização, colocando o outro em um plano idealizado, onde há controle daquilo que se demonstra e também daquilo que se pode captar, é fato que essa imagem precisará ser destituída e descontruída, para dar espaço a pessoa real que do outro, com todas suas qualidades e defeitos.
Seja no mundo real ou virtual, é natural que inicialmente, se idealize o outro, isso faz parte do processo de apaixonamento que normalmente ocorre a partir do investimento emocional no parceiro.
A Internet parece uma via alternativa, onde o sujeito tem a sensação de que pode controlar o grau de envolvimento que almeja ter com o outro. Talvez por saber o quanto é elevado o dispendio de energia inerente ao envolvimento emocional com o outro, onde muitas vezes aparece a sensação de ameaça de não ser correspondido ou ainda, a ansiedade decorrente do risco em se abrir para o novo.
Como uma tentativa de manter-se no controle, corre-se o risco de não se envolver com a pessoa real do outro, mas com aquela idealizada. Procurando evitar riscos, criam-se armadilhas maiores ainda, que podem esbarrar na superficialidade da relação até a frustração ao se deparar com a realidade que necessariamente nunca vem ao encontro com o objeto imaginarizado.
Via de regra, sabe-se que após o encontro com um possível parceiro, vive-se a imaginação de forma muito intensa, quando há a suposição que aquela pessoa pode vir de encontro com o perfil do sujeito ideal, como se visse a si mesmo de forma espelhada no outro.
"O objeto amado é, no investimento amoroso, pela captação que ele opera no sujeito, estritamente equivalente ao ideal do eu." (LACAN, 2009, p.170)
Percebe-se que nos chats que tem como principal objetivo a procura por um parceiro, procurara-se conhecer o postulante a futuro par através da palavra cuidadosamente apresentada pelo outro
Ainda é uma situação muito controlada, pois cada um pode escolher com cautela os pontos e qualidades a serem expostas ao outro. Mas só isso não sustenta um relacionamento, é preciso não se acomodar nesse lugar, muitas vezes permeado de superficialidade.
Não basta abrir a janela dos chats no computador para que a porta do coração também se abra. Para que ocorra uma relação de verdade é preciso sair do plano da idealização, pois duas pessoas só se tornam um casal, se existir envolvimento no plano da realidade.
O virtual por si só, não basta. Relacionamentos reais, são constituídos por meio da relação pautada na realidade, que contempla muito prazer e imaginação, mas também boas doses de frustração, risco e muito envolvimento emocional.

Referência:
LACAN, J. O seminário: Livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. (Originalmente publicado 1953-1954).

SINAL DE ALERTA: Ansiedade em demasia como resposta aos excessos

Vivemos na “era dos excessos”, constantemente escutamos os anseios e as aspirações que remetem a espera ou a tentativas de alcance de sempre mais...
Almeja-se o melhor trabalho, a família perfeita, filhos bem educados e obedientes, o corpo ideal, o conhecimento “completo” a respeito de quase tudo. Não falta nada, sendo justamente isso que falta.
Não faltam itens para esta lista que não cessa de se renovar. É importante que haja espaço para o desejo, possibilitando que o sujeito esteja em movimento. No entanto, preocupa quando esta lista vira uma obrigação a ser cumprida.
Onde está a satisfação se não há um ponto de basta, capaz de fazer função de ancora, permitindo um equilíbrio satisfatório na divisão da economia psíquica?
Vivemos na era do prazer e paradoxalmente há a emergência de sintomas que testemunham e evidenciam que o excesso da suposta busca incessante à satisfação acaba fatalmente ocasionando o desprazer.
Sintomas como: ansiedade, medo, fobias ou a chamada “Síndrome do Pânico”, nome dado pela Psiquiatria para as crises de angústia; aparecem freqüentemente e tem conseqüências na vida do sujeito que sofre, sem muitas vezes poder nomear a causa de seu sofrimento.
Quando os sintomas aparecem como forma de sinalização, normalmente aparece a indagação a respeito das causas deste aparente paradoxo. O sujeito se indaga onde falhou, já que preencheu tanto quanto possível seu tempo e disponibilidade psíquica em prol daquilo que era considerado seu ideal e, portanto, deveria ser sinônimo de felicidade.
Parece um contra-senso o ponto de falha derivar justamente dos excessos que visam eliminar o espaço para a falha e para a falta. Tudo precisa ser previsto e preenchido, a ponto do psiquismo não poder usar os mecanismos de auto-regulação dos quais normalmente dispõe, pois é exigido incessantemente, até que em dado momento dá sinais de fadiga, como alerta de que é preciso rever este modo de operar no limite do excesso.
Surpreendentemente, em meio a tantas atividades e conquistas, o sujeito se vê em meio a crises de ansiedade que evidenciam que algo não vai bem.
A teoria freudiana discorre a respeito da economia psíquica, defendendo a idéia de que o aparelho mental visa sempre o equilíbrio. O Eu prioriza o estado de adaptação, tanto interna, quanto entre o meio ambiente e organismo. Quando o estado de equilíbrio dinâmico é ameaçado, a ansiedade funciona como um sinal de alerta, resultante de um conflito psíquico, que tanto pode ser resultado de um conflito entre o ambiente externo e o organismo, como também um conflito intrapsíquico.
Em Além do Princípio do Prazer (1920), discorre-se sobre as funções do aparelho mental: “sujeitar os impulsos instintuais que com ele se chocam, substituir o processo primário pelo processo secundário, e converter sua energia catéxia livremente móvel numa catéxia principalmente quiescente (tônica). (FREUD, 1977, p.83)
O processo de obtenção de satisfação se dá inicialmente pelo processo primário, que consiste na tentativa de livre descarga de energia tentando alcançar por uma identidade de percepção (processo alucinatório) o objeto de satisfação. Se a pessoa mantém-se na alucinação, mantém-se no princípio do prazer. Já na fantasia, há a realização da satisfação de modo mais simbolizado, pois ocorre através do pensamento.
No processo secundário, mantém-se a mentalização, onde há inibição do escoamento livre de energia. Este processo tem uma função reguladora na descarga de tensão, posto que é necessário fazer desvios, possibilitando um refreamento da satisfação das necessidades. Tanto o processo primário quanto o processo secundário visam a redução de tensão.
O papel da ansiedade no funcionamento da estrutura psíquica corresponde à resposta do Eu a um impulso inconsciente que se fosse exteriorizado poderia expor a pessoa a um perigo real ou suposto.
Freud (1977), descreve o processo de regulação de tensões e a tentativa do organismo em reencontrar o equilíbrio na medida em que assegura a dominância do princípio do prazer. “Enquanto essa transformação se está realizando, nenhuma atenção pode ser concedida ao desenvolvimento do desprazer, mas isso não implica na suspensão do princípio do prazer. Pelo contrário, a transformação ocorre em favor dele; ...” (p.83)
A ansiedade causa sensação de ameaça e medo, o afeto remete a uma dimensão física onde o corpo é afetado e sente. A sensação de ansiedade aparece como um alerta sempre que o Eu sente-se ameaçado, diante da eminência de uma interdição ou perda. Assim, o psiquismo faz uso dos mecanismos de defesa como tentativa de controlar e manter inconsciente o impulso interpretado como perigoso.
Ressalta-se que a ansiedade pode aparecer tanto como um alerta frente a perigos reais, como também pode ser decorrente de um excesso de imaginário, proveniente de uma cobrança interna muito elevada, onde o julgamento moral deriva de um Super-Eu extremamente rígido, podendo ocasionar sofrimento. Vale lembrar que as ansiedades nem sempre estão associadas à ameaças reais ou atuais, podendo ter origem nas primeiras experiências do sujeito.
Sabe-se que os desejos inconscientes podem ser recalcados, mas sempre retornam de outra maneira, normalmente disfarçados.
Quando faltam recursos simbólicos para administrar determinada situação, como resultado pode aparecer o medo de punição diante da constatação do retorno de desejos recalcados, ou ainda: uma ansiedade moral, proveniente de uma auto-cobrança extremamente rígida.
Portanto, o sintoma é o resultado daquilo que foi recalcado. Quando este disfarce pode ser nomeado pelo sujeito, recebe o nome de medo ou ansiedade. Os quais são responsáveis pelo deslocamento da relação do sujeito com o desejo para o sintoma.
Contudo, quando esse sentimento não pode ser nomeado pelo sujeito, diz respeito a angústia, por não ter sido simbolizado. Não há representação de palavras, posto que o sujeito não encontra formas de nomear o objeto faltante.
Salienta-se que não se sabe qual tipo de experiência pode colocar a prova os recursos simbólicos que o sujeito possui. Diante da dificuldade ou impossibilidade de simbolizar um evento, o sintoma ocasiona um avanço do imaginário sobre o simbólico.
Qualquer perda é passível de reatualizar a primeira perda do sujeito, chamada de a angústia de castração. Como não há uma representação para a perda no inconsciente, aparecem os mecanismos de defesa como forma de lidar com este conteúdo.
As reações emocionais são variadas, desde palpitações, falta de ar, fobias, inquietação, transtornos do sono e alimentares, isolamento, dentro outros.
Cada reação articula-se diretamente com a cadeia associativa do sujeito, sintoma que retorna de maneira disfarçada, pelo conteúdo real gerar tamanho sofrimento, que o organismo aciona os mecanismos de defesa como forma de tentativa de reestabelecer o equilíbrio.
Os constructos freudianos apontam o caráter acentuado de desprazer presente na ansiedade. Considerando que o sujeito evita o desprazer e busca a prazer como mecanismo interno de auto-regulação. Sempre que o Eu tem a sensação de ameaça ou medo, procura encontrar meios de amenizar a sensação de desprazer.
Como a ansiedade gera uma quantidade significativa de tensão, o Eu aciona os mecanismos de defesa que consistem na distorção da realidade ou negação inconsciente, sistema que visa proteção do Eu à medida que busca a redução de tensão.
Assim, o psiquismo encontra uma maneira de recalcar o conteúdo conflitante no inconsciente. O problema é que este material recalcado não se contenta com esta condição e continua dando sinais de sua existência, retornando de maneira disfarçada e de forma singular para cada sujeito.
Algumas pessoas costumam dizer que quando se sentem ansiosas sentem muita vontade de comer. Logo, o excesso de peso muitas vezes é atribuído à ansiedade do sujeito. Mas isso não é uma regra, alguns realmente recorrem ao alimento como forma de buscar o prazer e desviar o pensamento do conteúdo conflitante. Mas também há aqueles que não conseguem comer; ou ainda: dormem em demasia ou perdem o sono, dentre outras manifestações.
Contudo, vale ressaltar que um dos mecanismos de defesa do organismo é recorrer a uma ação regressiva, que remeta à segurança de um período prazeroso da vida ou menos frustrante. No que tange o estado de regressão e a alimentação, sabe-se que no início da vida uma das sensações de maior satisfação na vida do bebê deriva justamente do aleitamento junto ao acolhimento materno.
Mesmo na infância, depois de já ter passado da fase oral, é muito comum os doces serem introduzidos como forma de gratificação, ganhando mais uma vez status equivalente à satisfação. Assim, na idade adulta, diante de uma situação de conflito, é comum verificarmos essa busca de recompensa e satisfação na tentativa de reestabelecimento de equilíbrio psíquico pela via da alimentação.
No entanto, essa tentativa acaba sendo frustrada, pois não resolve o conflito, apenas suprime momentaneamente. Esse mecanismo de regressão e satisfação pela via oral se retroalimenta por meio da compulsão à repetição, podendo desviar a relação do sujeito com o desejo, uma vez que está preso à cadeia repetitiva que leva para o mesmo lugar.
Quando a pessoa faz uso deste mecanismo de defesa regressivo frente à situações de ansiedade e existe uma pré-disposição para o ganho de peso, ocorre um ciclo vicioso que se retroalimenta, posto que o sujeito se frustra ao se dar conta do sobrepeso e mais uma vez recorre aos excessos na alimentação como forma de compensação, o quê acaba contribuindo para que essa dificuldade se instaure.
Se o sujeito não pode entrar em contato com o conteúdo conflitante reprimido, as tentativas conscientes de controle de peso nem sempre são bem sucedidas, o quê mais uma vez leva à frustração.
O conflito é psíquico, mas o organismo responde à essa forma de operar no limite, muitas vezes deixando de funcionar adequadamente. Sabe-se que em alguns casos, embora a pessoa tenha hábitos de vida saudável, faça exercícios regularmente, pode ainda apresentar redução no metabolismo, aumento de colesterol, dentre outras desfunções que deflagram e evidenciam as consequências das dificuldades de ordem emocional.
Em decorrência disso, aparecem queixas provenientes dos efeitos do sintoma, que visam justamente velar o objeto suprimido pela consciência. O sujeito busca o mesmo mecanismo de recompensa, que inevitavelmente repercute nos mesmos efeitos, dos quais o sujeito reclama, mas muitas vezes não consegue sair sozinho deste funcionamento que insiste em se repetir.
É importante ressaltar que existem espaços de escuta que possibilitam que o sujeito possa entrar em contato com o conteúdo que seus sintomas vêm para enunciar, como a Psicanálise e a Análise Corporal da Relação.
A Psicanálise é uma técnica que viabiliza a elaboração e ressignificação de conteúdos por meio da palavra. Na medida em que o sujeito pode entrar em contato com o real conteúdo que antes gerava ansiedade, pode encontrar outras formas de dar significado ao mesmo, possibilitando a percepção e questionamento de condutas.
Como a Psicanálise está na intersecção entre os eixos: real, simbólico e imaginário, no decorrer do processo analítico é possível encontrar formas de modificar a subjetividade que contempla muitos excessos. Daí a importância de poder entrar em contato com o vazio ou com a falta estruturante, para que o sujeito possa modificar sua relação com o desejo. É necessário que a falta seja inscrita, pois há uma organização em torno da mesma. A relação do sujeito com seus objetos se da justamente em torno da falta, que por sua vez permite que o querer se articule com o movimento do desejo.
Paulatinamente os sintomas perdem sua eficácia, na medida em que o sujeito aumenta sua relação com a possibilidade de entrar em contato com o vazio, para então poder desejar.
A Análise Corporal da Relação é uma abordagem que se utiliza da comunicação não verbal. Por meio da relação autêntica, esta ferramenta oferece um tempo e um espaço para viver o encontro com as emoções, redimensionando-as para ações passiveis de resgatar o desejo, viabilizando o equilíbrio para uma vida mais harmônica.
Seja por meio da palavra, no setting da Psicanálise ou através da comunicação infraverbal, na Análise Corporal da Relação, é importante que o sujeito possa se dar conta das condensações que realizou por meio do sintoma como forma de se fazer ouvir. Localizando sua parcela de subjetividade no mal estar produzido em determinado contexto, poderá abrir mão da compulsão à repetição para reencontrar o movimento desejante.
Se desvenciliando dos excessos que vem para tamponar uma falta que não deve ser velada, mas reconhecida e aceita, a subjetividade pode encontrar lugar para o vazio, assim como um espaço para o movimento desejante e uma forma de viver com mais liberdade: na “justa medida”, medida esta, que é única para cada um.


Referências:
FREUD, S. (1920). Além do princípio do prazer. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Obras Completas de Sigmund Freud, vol.XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Análise do Filme: "Muito Além do Jardim": Uma suceção de falhas na comunicação

O personagem principal, Chance, viveu confinado dentro de uma mansão até o falecimento do proprietário do local onde residia e trabalhava enquanto jardineiro. Seu conhecimento se resumia a este universo restrito e às imagens transmitidas pela televisão.
Chance imitava o quê via, mas não necessariamente compreendia o significado do conteúdo atrelado ao que visualizava.
Quando teve que deixar a mansão, entrou em contato com o mundo externo e, portanto, com a realidade. Sem possibilidade de realizar metáforas, levava recados interpretados ao pé da letra. Como quando levou a mensagem de Raphael ao médico da casa de Bob e Eve.
No que tange a este recado, pode-se observar que os rapazes que Chance conversou eram negros e o médico da casa de Ben também. Assim como aborda uma mulher negra na rua, pedindo seu almoço. Pois recebia todos os dias sua refeição da senhora negra que trabalhava na mansão.
Chance possivelmente interpretou que o comportamento de outras mulheres negras seria similar ao padrão que ele conhecia da funcionária da mansão.
Quanto ao médico da casa, Chance também pode ter feito uma conexão entre as características físicas dos personagens que mandaram um recado a Raphael, para em seguida atribuir que pessoas de cor semelhante devem se conhecer.
Nessas duas situações, Chance só se comportou desta forma (com a mulher negra na rua e com o médico), pois tinha uma vivência específica com a funcionária e por ter tido contato com o grupo de rapazes na rua.
Chance, o emissor da comunicação entregou a mensagem aos receptores errados. Que jamais poderiam compreender do que se tratava, visto que não tinham qualquer tipo de vínculo com o mesmo.
Fato que denuncia a ingenuidade de Chance e sua limitada capacidade de assimilar conteúdos.
Ao se maravilhar com a própria imagem vista na televisão que está com uma câmera ligada na vitrine da loja, acidentalmente, é atropelado pelo motorista de Eve Rand.
Aparentemente por receio de um processo legal, Eve decide levar Chance para receber cuidados médicos em sua casa. Chance aceita de bom grado tudo que lhe é oferecido, parecendo acreditar que as pessoas simplesmente são generosas.
Chance possivelmente aparentava pertencer a uma determinada classe social pela forma respeitosa e amigável como se apresentava ao outro.
Apresentava vestimentas distintas, pois tinha autorização para fazer uso das roupas do falecido dona da mansão. Além disso, apresenta uma fala polida, bem como comportamentos modelados em função da imagem televisiva, mas totalmente desprovidos de afeto.
O personagem convive com pessoas de diferentes níveis sociais e intelectuais, parecendo não despertar desconfiança quanto a sua real identidade.
Apesar de em algumas situações parecer evidente que Chance não compreendia a profundidade do conteúdo tratado pelos outros, as pessoas ao seu redor não se deram conta, presumindo que talvez ele estivesse falando de outro assunto.
Este fato pode ser observado quando Chance relata que nunca andou de carro e o funcionário de Eve imagina que ele estivesse se referindo ao motorista. Assim como no elevador, quando menciona que nunca havia andado em “um desses”, o funcionário interpreta que falava da cadeira de rodas.
Alienado a imagem carente de significados, esta característica do personagem Chance provavelmente possibilitou que os outros atribuíssem à Chauncey e sua fala, exatamente o quê gostariam de ouvir.
Chance cuida do jardim. Já Chauncey não faz muita coisa, além de fazer semblante, ocupando um lugar que é dado a ele de acordo com os interesses de cada personagem.
Eve Rand, com seu esposo Ben adoentado, parece carente e encontra em Chauncey um homem para amar e para se sentir desejada.
Seu esposo, Benjamin Rand, milionário com saúde debilitada, vê em Chauncey um sucessor para cuidar de sua esposa e quem sabe até administrar seus negócios. Que aos seus olhos, parece equilibrado e lhe “ensina” a lidar melhor com a morte.
Parece que Chance foi muito bem recebido tanto por Eve quanto por seu marido Ben, justamente por haver uma lacuna subjetiva para ela enquanto mulher e para ele enquanto homem de negócios e sujeito questionando sua existência no mundo e os caminhos que poderia encontrar para dar um destino aos seus objetos de amor (esposa e negócios) após sua morte.
Na busca de uma complementaridade, Eve vê em Chauncey uma possibilidade de relacionamento amoroso. Enquanto Ben atribui à Chauncey um lugar simétrico, de um homem sábio, com quem pode conversar de igual para igual, inclusive podendo ser um futuro candidato a ser seu substituto.
Ben trata deste assunto abertamente quando pede para que Chauncey e Eve compareçam ao evento social, acrescentando que já podia até ouvir os comentários a respeito de um possível relacionamento entre os dois, parecendo inclusive os encorajar a se envolverem.
Nesta cena, pode-se perceber o significado analógico que dá real dimensão ao conteúdo proposto por Ben à Eve. Ele simplesmente afirma que sabe que ela simpatiza com Chauncey, mas a forma como isso é dito ultrapassa o conteúdo da comunicação digital.
Sobretudo se observarmos o contexto e a pontuação das sequências comunicacionais, Ben só prossegue com sua proposta, por perceber na reação analógica de sua esposa, sua receptividade voltada para o novo hospede.
Ainda no que tange a sutileza da comunicação analógica, observa-se que Chance percebe quando duas pessoas se portam de maneira diferenciada, mas não possui pré-requisitos para compreender que determinados comportamentos reservam-se a relações específicas.
Ben convida seu hospede a participar da conversa com o presidente dos Estados Unidos. Mas antes se prepara para o encontro: usa maquiagem, abre mão da cadeira de rodas e faz questão de deixar o convidado a sua espera.
Neste comportamento programado, podemos perceber que Ben procura comunicar conteúdos a Bobby por meio de sua apresentação pessoal e atraso. Mesmo tendo se preparado antecipadamente para o encontro, fez questão de deixar o outro a sua espera. Fato que é confidenciado à Chance, quando ele diz que deixar o outro esperando é uma forma de demonstrar poder.
Diante da impossibilidade de não se comunicar, a mensagem é dada a partir do comportamento de se atrasar propositalmente ou de caminhar com os próprios pés e aparentar fisicamente (nem que seja por meio da maquiagem) estar melhor do que na realidade está.
Quando Ben apresenta Chance a Bobby, este imita exatamente a forma como Ben e Bobby se cumprimentaram. Ambos são amigos de longa data e já dispõem de intimidade para apertarem mãos de maneira característica.
Assim como na televisão, Chance repete este comportamento ao se apresentar ao presidente de maneira que poderia ser considerada invasiva. Apresenta-se e em seguida aperta suas mãos exatamente como visualizou Ben e Bobby o fazer minutos antes.
Neste aspecto, as informações atreladas ao aperto de mão característico demarcam o tipo de relação que Ben tem com o presidente. Contudo, Chance não tinha condições de discernir que alguns comportamentos se dão com pessoas com as quais se tem vínculo.
Bobby escuta a respeito dos cuidados referentes à jardinagem de Chauncey e os interpreta como uma brilhante metáfora da vida política. Tais conselhos são seguidos e parafraseados pelo próprio presidente.
Ben enfatiza que Chauncey é muito sincero. Estando ao lado de Ben, Bobby logo dá um caráter positivo à suposta autenticidade de Chance.
Pode-se concluir que aparentemente Chance não teve oportunidade de vivenciar vínculos significativos na vida, este fato necessariamente dificulta suas possibilidades de realizar uma leitura coerente da linguagem analógica.
Ao aparecer na mídia Chauncey torna-se uma celebridade. Já Chance, devido às suas limitadas possibilitadas de interpretação, parece acreditar que todos realmente estão fascinados por seus relatos a respeito de jardinagem.
Quando Chance é questionado pela imprensa com a pergunta: "_Que jornais você lê?". Ele responde: “_Eu não leio jornais". A repórter logo anuncia: "_Muitos homens não lêem jornal algum, mas apenas um teve coragem de admitir".
Agentes federais e jornalistas pesquisam seu passado, sem encontrar dados a respeito da identidade de Chauncey Gardner. Presumem que teve seus arquivos apagados pela CIA e FBI, visto que oficialmente ele não existe.
Devido ao interesse de pessoas influentes em Chance, sequer cogitam a possibilidade do personagem ser realmente aquilo que ele diz ser: um jardineiro falando de plantas.
Quando os agentes federais entram em contato com um dos advogados que expulsaram Chance da mansão, este logo presume que Chauncey tivesse ligação com o dono da mansão, “the old man”, como Chance o chamava. Concluindo que aquele homem certamente estaria na casa investigando e que ele teria os enganado muito bem ao se fazer passar por jardineiro.
Sem falar no suspiro dado pela mulher que estava com o advogado no momento em que eles vêem Chauncey na televisão. Parece que este personagem é capaz de trazer a tona emoção e conteúdos dos outros, justamente pela sua aparente lacuna, possibilitando que o outro escute ou veja aquilo que gostaria por meio do personagem Chance.
Conclui-se que a comunicação parece tão falha e Chauncey permanece por tanto tempo e sustenta este lugar que lhe é dado, justamente pela incidência de lapsos na compreensão do comportamento analógico e digital.

Um bom pai é aquele que nos permite desejar!

Dizem que é sentindo o frio da água que aprendemos a nadar...
Pai e mãe acompanharam meus primeiros passos, mas sei que o principal responsável pelas minhas primeiras braçadas na água foi meu pai.
Minha mãe sempre teve mais de receio no que diz respeito ao ambiente aquático.
Meu pai, em contrapartida, sempre gostou de tudo que se relacione a água e transmitiu essa paixão aos seus filhos.
Desde muito cedo eu e meu irmão fomos encorajados a brincar na água, com a presença segura do meu pai
Apesar da água oferecer perigo, para mim, sempre remeteu a um referencial de segurança. Devo isso a meu pai.
Ele foi o responsável por permitir que desenvolvêssemos essa habilidade e conforto simplesmente partindo do princípio que poderíamos ir mais longe.
Nadando no mar ou nos lagos, o aval dele sempre nos fazia crer que estaríamos seguros e amparados, pois ele estaria ali para nos proteger.
Hoje, percebo que não tenho a mesma ingenuidade de antes. Sei que o mar pode ser perigoso, devendo ser respeitado.
Atualmente, quando eu e meu pai nadamos juntos, até partilhamos uma insegurança ou outra no que diz respeito aos perigos que podemos encontrar nas águas.
Mas de alguma forma, quando estou nadando, sinto sua presença ao meu lado. Sempre que preciso, recorro as minhas memórias de infância e me sinto segura, apesar de estar alerta, considerando os perigos que o mar também pode oferecer.
Faço uma analogia com a própria vida, quando crianças precisamos acreditar que nosso pai "super herói", nos livrará de todo e qualquer mal. É importante ter a ilusão que estaremos sempre seguros.
A medida que crescemos, percebemos que o pai não detém o controle de tudo. Mas mesmo assim nos aventuramos a ir mais longe, carregando o pai dentro da gente.
Para mim, pai é aquele que encoraja e acaba incentivando a cair na água fria, mesmo que a mãe só deseje oferecer o aconchego do ninho quente.
O pai permite que a gente queira ir mais longe, a função paterna nos possibilita desejar. Nos impulsionando a ir, nos autorizamos a querer sempre mais.
Meu pai pode fazer isso muito bem. Portanto, posso chamá-lo de um bom pai!
Liberando os filhos para dar braçadas pela vida, também possibilitou que a própria mãe investisse em seus projetos pessoais, encontrando outros interesses além dos filhos.
Pai e mãe se complementam em seus papéis tão singulares. É certo que em alguns momentos estas funções se alternam. Recebemos ora carinho paterno ora um puxão de orelha materno.
Mesmo adulta, é reconfortante ter o acolhimento no olhar da mãe e encontrar nas palavras do pai a possibilidade de encontrar um norte.
Portanto, exalto neste dia dos pais, quão importante tem sido seu papel de acolhimento, de limite, de referencial seguro, que encoraja e ao mesmo tempo protege.

Os pais nos tiram do colo, mas nos dão todas as ferramentas para seguir com as próprias pernas e braços, em busca de um ofício e de um futuro lar para chamar de seu.

Obrigada por nos transmitir tudo de melhor que tem dentro de si mesmo.
Somos exatamente como somos, por receber tudo que você (como nosso pai) pode nos ensinar, tanto por meio de palavras como a partir das vivências que tivemos contigo, seu modo de ser e de agir.
Somos um pouco de tudo aquilo que já amamos, por amar tanto, nos identificamos.

Meu pai, modelo de identificação, exemplo de amor.
Você me amou mesmo antes de eu nascer.

Quando vim a este mundo, aprendi a te amar também.

Você foi tão generoso, que me fez aprender a amar outras coisas...
Possibilitou que eu investisse também em pessoas, além de meus primeiros referenciais de amor.

Deixando-me traçar e percorrer minhas próprias trilhas, cuidou muito bem da minha mãe.

Provendo segurança para que eu pudesse ir conhecer o quê de bom poderia existir para mim no mundo.
Só assim posso a cada dia descobrir o quê da vida me satisfaz.

Ser pai é tudo isso!

Sentir que o desejo existe e por isso permite que o filho possa desejar também!

Amo você meu pai Atilio, parabéns pelo seu dia!
Filha: "Carol Caracol"

Me deixar cortar

"Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira". (Cecília Meireles)

... Estou aprendendo com a psicanálise a me deixar cortar e aceitar o fato de que não sou inteira.
Nessa impossibilidade de inteireza, sinto-me mais confortável na condição de incompletude.

Sobre a resistência

Desde que comecei a participar das vivências em psicomotricidade relacional, sentia que muitos conteúdos eram acessados, tão intensamente quanto acontece quando estamos em análise, de forma até difícil de colocar em palavras.
Pela quantidade de posts no blog sobre psicomotridicade relacional, não preciso nem dizer que estou realmente apaixonada por este método.
Assim como eu, muitos de meus colegas da turma de pós-graduação.
Durante as sessões de formação pessoal, faz-se o uso da comunicação infraverbal, ou seja, nos abstemos da palavra, abrindo espaço para a linguagem tônica, quando procuramos nos fazer entender por meio de um diálogo essencialmente corporal.
Contudo, quando volta-se a dar espaço para a palavra, a fala histérica aparece, gerando até certo desconforto, sobretudo quando algumas pessoas fazem das vivências, uma verdadeira sessão de análise própria.
A fala histriônica esta diretamente ligada a estruturação da pessoa, sobretudo aquela de constituição psíquica aos moldes da neurose histérica.
Nesse sentido, falar de si desenfreadamente funciona muito bem como forma de recalque, não necessariamente se implicando com o quê foi mobilizado.
Falando sem cessar, a bela histérica inclusive encobre conteúdos inconscientes significativos, ou seja: resiste e recalca aquilo que insistentemente tentou emergir.
O conteúdo inconsciente fica represado a medida que a pessoa traz em excesso conteúdos da vida pessoal, família ou trabalho. Contextos que até se articulam com o momento, mas APENAS para a pessoa.
Apesar do coordenador pontuar muito bem: "_Mas e AQUI, o quê você sentiu?"
(Sempre procurando dar ênfase ao momento.)
Certamente por estar advertido que muito dos conteúdos relatados fora do contexto da vivência, normalmente estão justamente a favor da resistência.
Como era de se esperar, nem sempre existe a possibilidade de atingir esta expectativa, que parece tão simples.
E aí o raciocínio lógico se impõe, confundindo aquilo que poderia ser elaborado.
Podemos até reconhecer que a produção intelectual como uma delas. Para os obsessivos de carteirinha. Muito prazer.
Portanto, não se trata de fazer julgamentos. Isso seria um equívoco.
Neste contexto pretende-se compreender como poderíamos possibilitar que essa resistência não impedisse a própria pessoa que sustenta uma fala verborréica a serviço do atrapalho próprio e como consequência atrapalho coletivo.
Não ao acaso, normalmente são as mesmas que falam, se repetem, até sem deixar espaço para contribuição de outras pessoas.
O texto "Escutatória" de Rubem Alves, foi postado neste blog até como uma forma de procurar "falar" sobre esse assunto de forma indireta.
Encaminhei a todos os integrantes da turma e mencionei quão importante seria aprender ou refletir sobre a possibilidade de falar, mas deixar falar, ou seja, saber ouvir.
Funcionou? Claro que não!
Recordo-me de uma fala do cantor Oswaldo Montenegro, que compos a música "O chato" inspirado em um amigo. Tamanha foi sua surpresa ao ouvir deste amigo que esta era A SUA favorita.
O amigo do cantor estava correto, era dele mesmo. Chamamos isso de identificação. Quando temos um sintoma, o reconhecemos muito bem no outro, ou mesmo na produção artística.
Mas daí a se implicar de verdade, é outra história.
Análise de sintomas a parte... Tomei a iniciativa de escrever, provavelmente por estar incomodada com a fala fora do contexto de maneira excessiva (de uma minoria), mas sobretudo por perceber o seguinte:
A desistência de algumas pessoas do curso de especialização coincidiu com a exposição excessiva em um momento precoce.
Ao observar este aspecto, recordei de uma das primeiras supervisões em introdução à clínica psicanalítica, que tratava justamente de preservar a pessoa dela mesma.
Pois muitas vezes estabelece-se uma transferência que leva a pessoa a falar... falar... e finalmente acaba por fugir da pessoa (ou grupo) para o qual falou.
Justamente para nunca mais ter que se encontrar com aquilo que foi dito.
Nesse sentido, é relevante saber quando se DEVE interromper.
O corte deve visar o impedimento da pessoa falar em demasia a respeito de si mesma em um momento precoce, quando o vínculo ainda não está bem estabelecido.
Emprestando esse preceito da linha psicanalítica, a psicomotricidade relacional poderia vir a se beneficiar da interdição, não correspondendo a demanda da pessoa em colocar o grupo na condição de seu ouvinte a serviço do recalque.
Chego a esta conclusão por presumir que um dos motivos que tenha levado alguns colegas a interromper essa formação se deva justamente para não se encontrar com aquilo que tinham exposto, em um momento de maior fragilidade, quando o conteúdo inconsciente saiu da repressão.
O problema é que a pessoa fala para o grupo para poder se escutar, no momento em que isso acontece, ela se expõe. Podemos fazer uma metáfora com a sensação de colocar uma lanterna iluminando invazivamente aquilo que era cuidadosamente encoberto.
Sabemos o quanto os mecanismos de defesa trabalham arduamente para fazer valer o mínimo de desgaste energético possível, nem que seja às custas de manter aquilo que dói bem guardado, ou seja, recalcado.
Divido essas percepções em um momento bastante precoce de minha formação em psicomotricidade relacional: enquanto aluna do curso de especialização.
É nesta condição que concluo que talvez seja uma estratégia interessante deixar que estas pessoas até falem algo fora do contexto do momento, relacionando à sua vida pessoal. Contudo apenas após algumas "sessões" ou "vivências". E com a ressalva de fazer valer o interdito sempre que necessário. Para o bem da própria pessoa e consequentemente do grupo.
Em última instância, pode até ser que para evitar o encontro com o conteúdo exposto ao grupo, ocorra a desistência de um projeto, no caso da especialização.
Partindo do princípio que desistir da pós-graduação pode ser justamente uma manobra para evitar encontrar-se com o que foi relatado.
Verifica-se nesse aspecto a incidência da RESISTÊNCIA. Resistimos o tempo todo, sem cessar.
Portanto, barrar a pessoa, sobretudo nas primeiras vivências, seria um manejo interessante na medida que possibilita que o vínculo se estabeleça, se consolide junto ao grupo.
Apenas neste momento, quem sabe depois de algum tempo de formação e parceria, até seja permitido o relato com maiores detalhes da intimidade da pessoa.
Vale lembrar que essa é a contribuição de uma discente em formação.
Minha pretensão neste texto é apenas articular minhas percepções do setting da psicomotricidade relacional à minha experiência profissional em psicanálise.

Uma articulação possível entre a Psicanálise e a Psicomotricidade Relacional

Conforme mencionado em: Da psicomotricidade Relacional à Análise Corporal da Relação: Gênese de uma terapia, André Lapierre fez uso da teoria psicanalítica, especialmente a freudiana, para dar embasamento teórico à prática criada.
É relevante observar o contexto em que o didata André Lapierre estruturou essa modalidade de intervenção, momento em que a maioria dos profissionais da área “psi”, tinham a tendência em diagnosticar, impondo um saber psiquiátrico que poderia vir a rotular a criança. Ao passo que pouco se ofertava no sentido de proporcionar uma orientação à equipe pedagógica ou intervenção junto à criança que apresentava dificuldades.
Sabemos da importância conferida à ciência, sobretudo há meio século. O saber médico inquestionável, definindo o limite entre a normalidade e a loucura. Freud, inclusive precisou romper com o paradigma da neurologia da época ao introduzir a idéia de causas não evolutivas, situando a sexualidade infantil na constituição psíquica.
Em O adulto diante da criança de 0 a 3 anos, Anne e André Lapierre relatam o trabalho pioneiro em psicomotricidade relacional, cujos métodos possibilitaram a construção de um caminho capaz de conferir uma saída possível para certas crianças. Ficando evidente a importância da articulação do aparato teórico psicanalítico, dando sustentação à prática da psicomotricidade relacional.
A partir da aparentemente brincadeira livre e espontânea na companhia de adultos, propicia-se um espaço capaz de trazer a tona conteúdos inconscientes importantes.
Os conceitos freudianos situam o inconsciente como o lugar das representações.
Lacan, autor que faz retorno a Freud, propõe o inconsciente estruturado enquanto linguagem. O recalque, operação que confere a divisão psíquica, se refere a inscrição do objeto enquanto perdido, chamado de objeto a.
De acordo com a psicanálise freudiana, o inconsciente tem como característica a condensação e o deslocamento, forma pelo qual o conteúdo investido de energia pulsional pode retornar a consciência de maneira disfarçada, passando pela censura.
Inicialmente, Freud faz referência à sua topografia, dando uma dimensão de lugar para o inconsciente, pré-consciente e consciente. Ressaltando que o inconsciente não tem acesso ao consciente, se não por disfarce.
Na segunda tópica, propõe a noção de estrutura do aparelho psíquico. Onde o isso, eu e supereu estão separados por duas censuras.
O isso funciona a partir do princípio do prazer, representando o lugar das pulsões. O eu opera de acordo com o princípio da realidade, utilizando-se dos mecanismos de defesa, para regular o conflito entre as pulsões e exigência da realidade externa. Enquanto o supereu, o herdeiro do complexo de Édipo, advindo das marcas constituídas a partir das relações, internaliza as proibições impostas pela realidade exterior.
A partir da ação do recalque, o inconsciente é investido por representações da pulsão, que operam marcas no sujeito. Essas marcas são impressas pelo investimento do Outro materno, capaz de demarcar o destino da criança.
A teoria psicanalítica faz uma leitura do ser humano como alguém que já possui uma história singular antes mesmo de existir. Reconhecendo que um filho só vem ao mundo se foi desejado pelo casal. A criança passa a ter um lugar único no discurso de cada membro da família e aos poucos, vai se identificando com aquilo que os outros dizem que ela é.
A demanda do Outro Primordial na vida do infans é condição para que se estruture enquanto sujeito. O bebê precisa ser tomado como objeto de desejo da mãe ou pessoa capaz de realizar a função materna e ser capturado por esse olhar que o enlaça e concede uma possibilidade de constituição de um “eu” para o futuro sujeito.
A construção do corpo se desenvolve a medida que o filho é capturado pela imago parental, possibilitando que encontre um significante que o represente. Portanto, a constituição do psiquismo se inicia a partir das primeiras ligações com o psiquismo materno.
Inicialmente, é preciso que alguém tire a criança da homeostase, pois a tendência é a manutenção mínima de excitação. No processo primário, alucina-se o objeto de satisfação; no processo secundário, a partir da fantasia opera a realização da satisfação de modo mais simbolizado. Tanto o processo primário quanto secundário visam a redução de tensão.
O princípio do prazer precisa dar lugar ao princípio da realidade, a partir de investimentos representativos e estáveis. Os constructos freudianos apontam para a libidinização do bebê como sendo essencial ao narcisismo originário, quando a criança pode tomar-se como objeto de amor.
No primeiro tempo edípico ocorre a identificação com o objeto de desejo da mãe. Tempo onde o circuito pulsional é marcado pela busca do objeto oral, quando o bebê ativamente apodera-se, seja do seio ou da mamadeira.
No segundo tempo, chamado de passivo, o bebê erotizando-se, confere prazer a si mesmo, passando pela experiência alucinatória. No terceiro tempo, reflexivo, ocorre o fechamento do circuito pulsional. Com a repetição, a criança pode ocupar o lugar de um sujeito da pulsão assujeitado ao outro.
Visto que a pulsão não tem um objeto que a represente, estará sempre se reinventando, podendo se representar a partir de: inversão em seu contrário (sadismo em masoquismo, transformação de amor em ódio); reversão para a própria pessoa (masoquismo originário); recalque (afastamento do consciente para o inconsciente); sublimação (desvio da pulsão sexual para objetos não sexuais, como a criação intelectual).
A psicanálise lacaniana aponta a inscrição do desejo materno, a forma como a mãe maneja as zonas erógenas no corpo da criança, como porta de entrada de seu universo simbólico. Processo que se articula com a construção do romance familiar da criança.
É essencial que o filho se aliene no desejo do outro, mas que também se separe, movimento demarcado pela inscrição da castração, ou seja, da falta.
Para que a criança possa se diferenciar do outro materno, a mãe precisa poder ir e vir, podendo desejar outras coisas que não o bebê.
Desta forma, a falta se inscreve, a criança perde o lugar de falo, realiza o luto da perda de ser o representante do objeto de gozo da mãe e passa a operar com sua fantasia.
Quanto a isso, Lapierre (2005) afirma que quando a criança percebe-se diferenciada do corpo da mãe, encontra-se com a falta e sensação de perda, mas o outro já existe à distância.
"A separação dos corpos vai tornar impossível essa união no contato tônico direto, vai obrigar o encontro de outros meios substitutivos, simbólicos, para reestabelecer o "contato" com o outro.” (LAPIERRE, 2005, p.43)
O contato com o outro, será mediado pela forma como o sujeito organizou sua relação com a falta, ou seja, com o significante originário que encontrou para dar um ser para si e as possibilidades de deslizamento em sua cadeia metonímica.
Portanto, as relações são permeadas pela linguagem que tem representações únicas para cada sujeito, mas podem ser identificadas a partir das estruturas que demarcam a forma como cada sujeito se relaciona com sua forma de gozar.
O diagnóstico diferencial permite a identificação da organização do sujeito com o mundo. Instrumento de suma importância para o profissional. Sobretudo, no que tange a criança cuja faixa etária ainda é de constituição psíquica, possibilitando a detecção de pautas autistas ou perversas que poderiam vir a se cristalizar, determinando uma possível estruturação.
Na neurose, a criança é marcada pelo investimento materno enquanto falo, quando a pessoa responsável pela realização da função materna pode tomar a criança como objeto de desejo.
Contudo, é importante que esse Outro Primordial também possa desejar outras coisas, possibilitando que a criança passe pela privação e frustração, ofertando tanto sua presença quanto ausência, permitindo que a criança se encontre com a angústia de castração. Operação que marca a simbolização da castração sob forma de recalque, conferindo à submissão a lei.
Quando a criança é tomada enquanto falo, pode investir essa carga pulsional erogeinizada tomando-se enquanto objeto de amor, mas pode trocar de objeto, passando pelo processo secundário. A travessia edípica fecha o terceiro tempo através da metáfora paterna, quando há a renúncia da pulsão para viver em sociedade, interditando o real e fazendo trocas de objeto, operando de modo simbólico.
Na neurose, o sujeito pode ter um caráter racional ou histriônico, ora operando aos moldes obsessivos, ora histéricos. Havendo a operação de condensação e deslocamento do material recalcado, a fala é de cunho metafórico.
Na psicose a fala é de cunho literal, uma vez que o sentido é real, devido a ausência da operação da metáfora paterna. Ao se deparar com a angústia de castração, o sujeito produz o rechaço. Não podendo investir em nada ou ninguém que não ele mesmo, toma-se como objeto de amor. Os elementos inconscientes parecem retornar de fora para dentro, se externalizando a partir dos fenômenos elementares. No grupo das psicoses, a psicanálise situa a esquizofrenia e a melancolia.
Na perversão, a criança é investida unicamente como falo, o Outro Primordial não permite que o sujeito saia desta condição, a medida que não dá lugar a entrada do terceiro, capaz de salvar a criança do gozo mortífero da mãe. Sem a arbitrariedade materna, a criança acredita ser o objeto de desejo da mãe, e não apenas um dos objetos que a satisfaz. Neste molde de estruturação, a criança aceita a castração, muito embora a renegue. Diante do impossível do objeto, desmente a falta transgredindo a lei, ao passo que constrói a ilusão imaginária de que para ele tudo será possível.
É relevante considerar o modo de posicionamento do sujeito perante o drama universal da castração, uma vez que podemos nos deparar com traços perversos no ser humano ou mesmo sociedade.
Podemos detectar alguns traços perversos na sociedade que coloca como imperativo que o sujeito goze o tempo todo, propondo inclusive soluções químicas para problemas psíquicos. No mercado, encontram-se as drogas lícitas e ilícitas. A toxicomania ganha força à medida que se propõe a suprimir a relação do sujeito com a própria falta, operação que tende ao fracasso.
Verificamos a imposição da medicalização, criando uma demanda com o próprio excesso de oferta, impondo a recusa a qualquer estado de depressão, como se vivenciar a tristeza fosse algo a ser evitado, inclusive quando existe um luto a ser elaborado. Muitas vezes tomando a melancolia e a depressão como se fossem sinônimos.
É nessa sociedade atual, com pautas perversas, que o psicomotricista relacional se propõe a atuar, com crianças que adoecem precocemente para dar significado à falta de um sentido parental. Uma escuta afinada deve considerar tanto a criança quanto seus pais, visto que uma dificuldade em seu corpo pode se articular ao sintoma de seus pais. Portanto, observar o contexto familiar e social que a criança está inserida, é fundamental para que a linguagem corporal da criança possa ser decifrada.
O setting da psicomotricidade relacional transcorre de forma propositalmente desestruturada, mas deve haver comprometimento com a escuta genuína da criança, pois elas têm conteúdos importantes a comunicar, pela linguagem verbal ou corporal. Nesse contexto, os profissionais devem estar implicados com os objetivos propostos desta prática: tanto ao interpretar a linguagem do corpo quanto ao se preocupar com a leitura do que as crianças podem denunciar a partir do comportamento observado nas relações com outras crianças e adultos.
Considerando o posicionamento da criança frente às demandas do outro, sua idade lógica e cronológica, contexto familiar e social, propõe-se a realização de um diagnóstico diferencial capaz de conferir intervenções diretamente relacionadas às suas necessidades.
Lapierre (2005) menciona a importância do posicionamento do adulto frente à criança, conferindo-lhe um lugar diferente do que costuma receber. Como conseqüência, ela mesma poderá buscar junto aos seus familiares esta nova modalidade de relação, podendo inclusive operar mudanças significativas em seu meio familiar, visto que pode sair da posição sintomática onde era convocada a ocupar.
Nos casos em que a criança encontra-se alienada em si mesma, mas ainda aceita ser tomada como objeto de desejo do outro, há possibilidades de uma resposta frente ao enlaçamento via olhar e desejo do Outro. Ou ainda, no caso de crianças que recusam a lei, mas ainda tem condições de equacionar a operação da castração, podem sair do imperativo que não confere outra possibilidade se não a de gozar a qualquer preço.
No que tange as estruturas já definidas, é relevante considerar a condição de cada sujeito, relacionando-se e intervindo de acordo com a compreensão do profissional perante determinada constituição psíquica. Na maioria dos casos, há possibilidades da promoção de mudanças subjetivas importantes, contanto que esta ética seja respeitada.
O anexo “relacional” da psicomotricidade confere status privilegiado à relação entre criança e adulto. Ou como nomeia a psicanálise lacaniana: o infans e Outro Primordial. É relevante reconhecer que se a criança demonstra dificuldades ao se relacionar com o outro, existe outra via de estruturação psíquica possível, desde que antes dos seis anos de idade.
Nesse sentido, a psicomotricidade relacional pode ter o privilégio de realizar a detecção precoce, endereçando alguns casos a um psicólogo ou outros profissionais da Instituição onde atua, mas também fazendo uso de seu setting de trabalho, acolhendo a demanda da criança e pontuando a partir da linguagem corporal.
A partir da linguagem simbólica do corpo, a psicomotricidade relacional pode funcionar como uma ferramenta capaz de atuar em creches e escolas, podendo acessar o infans ainda em fase de estruturação psíquica, portanto, passível de mudanças significativas.
Portanto, a compreensão dos efeitos do outro na subjetivação da criança é condição sine qua non, para atuar frente a uma clientela que também pode fazer uma demanda, que pode ser acolhida pelo profissional que atua nas Instituições com este propósito de prevenção e em alguns casos, também de reabilitação.


REFERÊNCIAS

LAPIERRE, A. Da psicomotricidade relacional à análise corporal da relação: gênese de uma terapia. Curitiba: UFPR - CIAR, 2002.

LAPIERRE, A. & LAPIERRE, A. O adulto diante da criança de 0 a 3 anos: psicomotricidade relacional e formação da personalidade. Curitiba: UFPR-CIAR, 2005.







Boa criança má

Não sou uma criança boa
Seria mentira dizer que
Sou aceita e querida por todos
Tenho certeza que
Deve haver uma razão
Sinto dentro de mim que
Não sinto amor
Nem me atrevo a afirmar que
Acredito que os colegas de classe me querem bem
Sinto a cada dia que passa que
Nunca tive um lugar na minha família
Não ousaria dizer que
Sou boazinha
Preciso dizer a verdade!
Todos pensam que represento apenas a maldade...


Agora leia o poema de baixo para cima e perceba o contraste de tais afirmações. Após a leitura, veja a conclusão na seqüência.


Este poema foi inspirado no estilo de escrita de Cecília Meirelles.

Os poetas podem expressar a partir da arte o duplo sentido que as palavras podem conter.

Constantemente, nos denunciamos a partir de atos que nos desmentem, os chistes e atos falhos são exemplos que presentificam conteúdos inconscientes.

Ou mesmo gestos que fazem menção a outra coisa, apesar de dizermos conscientemente justamente o contrário.

Sabemos que o amor esta atrelado ao ódio.

O bom contém em parte, o ruim.

Só sabemos que a vida pode ser doce, se em algum momento experimentamos o amargo.

Não há prazer sem sofrimento.

Nem mesmo crescimento sem dor ou luto do que já se foi.

A criança tida como malvada, pode estar fazendo um pedido de afeto.

Enquanto aquela que é tida como boa, pode estar se auto-agredindo a medida que nega seu próprio desejo.

As polaridades exacerbadas tendem a chamar atenção.

Nem tão bom, nem tão mal.

Precisamos da agressividade, muitas vezes interpretada como maldade, para se auto-afirmar, competir, ir de encontro aos ideais.

Ninguém disse que seria uma tarefa simples encontrar-se com o desejo.

A bondade excessiva também é preocupante, pois nos deparamos com pequenos sujeitos que já não se dão o direito de se deixar levar pelo princípio do prazer, tamanha a severidade do supereu, aquela voz interna severa que não se permite desejar.

O princípio do prazer é tão essencial aos seres humanos quanto o princípio da realidade.

Não se trata de fazer uma exaltação ao comportamento perverso, tão pouco a permissividade.

Mas que a bondade e maldade possam se representar na justa medida.

Portanto, que cada um de nós saiba se encontrar com a criança boa e má que nos habita, sempre que necessário.

A Sereia de Curitiba (Por: Rhys Hughes)





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http://www.livrosdeareia.com/livros_Sereia.htm

Título : A sereia de Curitiba
Título original : Mermaid of Curitiba
Género : Fantástico / Humor / Contos
Autor : Rhys Hughes
Tradução : Safaa Dib
Desenhos : Paulo Barros
ISBN : 978-989-95178-8-2
Páginas : 170
Dimensões : 230 x 150 mm

© Copyright 2005-2009 Livros de Areia Editores, Lda. Todos os direitos reservados.
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De Curitiba ao Funchal, de Butrint a Streslau, das montanhas da Ásia Menor à Lua e de volta ao fundo dos mares tropicais: eis a rota desta alucinante aventura. Se a vida é um jogo, Rhys Hughes joga-a com o baralho da mais audaciosa fantasia, sob as regras de um humor absurdo e contagiante.
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Sobre o autor:

Visitante assíduo de Portugal, Rhys Hughes foi-o também do Brasil, e é a este universo de lusofonia que ele presta homenagem neste livro que, como todos os deste autor, reserva uma surpresa: A Sereia de Curitiba foi escrito (em inglês) para ser publicado UNICAMENTE em português, sendo possivelmente o primeiro livro na História concebido de tal forma e com tal propósito. ¶ Mas outros marcos geográficos das suas viagens ao longo dos anos se reflectem nestas linhas: este é um atlas informal para os aventureiros, e para os que acreditam que o caminho que se faz no mundo (e que é o único) é também um caminho íntimo e pessoal.

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Eu recomendo! ;-)

PSICOLOGIA CLÍNICA, PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM, REABILITAÇÃO