quarta-feira, 7 de maio de 2014

Natureza feminina: decifra-me!

Às vezes me pergunto se aquilo que nos inspira, também expira.
Há momentos em que nos sentimos extasiados de inspiração e de repente, o prazo de validade daquilo que antes nos movia acaba.
O desejo sempre desliza, não se fixa apenas em um objeto, é inapreensível. Temos a constante sensação de que a felicidade suprema é um bem inalcansável.
De acordo com os constructos freudianos, o indivíduo visa a felicidade, muito embora crie barreiras para não atingi-la.

"(...) enquanto estivermos imersos no mundo simbólico, enquanto pertenceremos a esse universo em que tudo assume mil e um sentidos, jamais chegaremos à plena satisfação do desejo, porque, daqui até à satisfação plena, estende-se um campo infinito, constituido de mil e um labirintos." (NASIO, 1993, p.38).

Estou nesse labirinto que pode ser nomeado como tempo ou realidade, já dando margem a uma infinidade de interpretações...
Sinto falta de um passado que nunca existiu (exatamente como eu lembro) e de um futuro que eu vislumbro estar por vir (e que jamais será todo como eu imagino).
Meu presente está em algum lugar entre esses dois espaços e não importa o quanto eu ande, jamais posso o agarrar.
Sentimento saudosista do que já passou, mas ficou.
Esperança de encontrar em algum tempo um pouco daquilo que já se foi em meio à novas configurações, na minha realidade.
Expectativa de que a vida me surpreenda, muito embora eu saiba que sempre temos alguma (ou toda) responsabilidade dos eventos que nos ocorrem, pois o desejamos, mesmo que de forma inconsciente, ainda que sem saber do próprio desejo.
De certa forma, nosso futuro é só um espelho que reflete os pensamentos e atos do passado: do "tunel do tempo" de cada um e de todos aqueles que ora amamos ora odiamos, mas que sem dúvida, foram significantes o bastante para fazerem marcas e auxiliarem na construção de quem somos.
O quê eu realmente penso? Não pode ser escrito.
Prefiro jogar palavras ao vento e esperar que a natureza se encarregue de seu trajeto.
Não me peça para ser direta, não estou pronta para me comprometer a esse ponto.
Digo frases soltas e jogo questões enigmáticas, tendo a esperança de que você decodifique meus enigmas, pois eu também não tenho a resposta para as minhas perguntas.
E quanto mais procuro me entender, menos certezas encontro.
Os paradigmas fazem parte do meu passado, presente e futuro, pelo simples fato de que a minha natureza é feminina.

REFERÊNCIA:
NASIO, J. D. Cinco Lições Sobre a Teoria de Jacques Lacan, Jorge Zahar, Rio de Janeiro: 1993.

Discussão do caso "O Homem dos Lobos"


CASO CLÍNICO: História de uma neurose infantil. “Homem dos Lobos”

Capítulo IV – O sonho e a cena primária (FREUD, 1918).

Caroline Moreira de Oliveira
O presente texto contempla o conteúdo do capítulo O sonho e a cena primária, do texto de 1918 de Freud: História de uma neurose infantil, utilizando-se de fragmentos que correspondem às interpretações freudianas, articulando ao conceito lacaniano de fantasma.
De acordo com Freud (1976), o sonho possibilitou a ativação da cena primária, levando o paciente de volta à organização genital.
Quando criança, Serguéi Pankejeff tinha medo da figura de um animal ereto conhecido apenas em histórias de contos. Mais tarde o livro foi identificado pelo próprio analisante como sendo: O lobo e os sete cabritinhos.
Em análise, o jovem analisante relata a recordação de seu primeiro sonho de ansiedade, descreve seu medo ao avistar uma árvore em cujos galhos havia lobos brancos com orelhas empinadas e caldas de raposas. Os lobos o fitavam, quietos e imóveis em frente à janela.
De acordo com Dunker (1996), no sonho havia lobos nos galhos da nogueira, sendo que um deles “olhava fixamente para o paciente que acorda sob efeito de angústia” (p.161).



Em posteriores associações, o jovem diria que esta árvore era na realidade uma árvore de Natal. Uma vez que a data do seu aniversário e do Natal coincidiam, pode precisar a idade de quatro anos quando teria tido este sonho. Por ser uma data de comemoração dupla, esperava receber presentes dobrados. Em seu sonho, os presentes foram substituídos por lobos, e o sentimento predominante era o medo de ser devorado pelo lobo, que segundo Freud, representava a figura paterna.
Freud (1976), afirma: “o lobo do qual tinha medo era, sem dúvida, seu pai; mas o medo do lobo era condicionado pelo fato de a criatura estar numa posição ereta” (p.52).
Quando o analista questiona a respeito de como os lobos teriam subido nas árvores, o jovem associa a uma história contada pelo avô, que faz alusão ao complexo de castração.

A história dizia assim: um alfaiate estava sentado trabalhando em seu quarto, quando a janela se abriu e um lobo pulou para dentro. O alfaiate perseguiu-o com seu bastão – não (corrigiu-se), apanhou-o pela cauda e arrancou-a fora, de modo que o lobo fugiu correndo, aterrorizado. Algum tempo mais tarde, o alfaiate foi até a floresta subitamente viu uma alcatéia de lobos vindo em sua direção; então trepou numa árvore para fugir-lhes. A princípio, os lobos ficaram perplexos; mas o aleijado, que se achava entre eles e queria vingar-se do alfaiate, propôs que trepassem uns sobre os outros, até que o último pudesse apanhá-lo. Ele próprio – tratava-se de um animal velho e vigoroso – ficaria na base da pirâmide. Os lobos fizeram como ele sugerira, mas o alfaiate reconhecera o visitante a que havia castigado e de repente gritou, como fizera antes: “Apanhem o cinzendo pela calda!” O lobo sem rabo, aterrorizado pela recordação, correu, e todos os outros desmoronaram (FREUD, 1976, p.42-23).

Freud (1976), aponta para o desconhecimento da cena e a deformação do material presente no sonho, tanto no que tange o medo da morte quanto o tema da castração.
O autor chama a atenção para o período em que o sonho foi sonhado, provavelmente aos quatro anos, período onde a criança começa a investigar questões referentes à sua origem e em um segundo momento, quanto à diferença sexual anatômica.
O sonho da cena primária possibilitou que o analisante atingisse uma nova fase de organização sexual. “Descobriu a vagina e o significado biológico do masculino e feminino. Compreendia agora que ativo era o mesmo que masculino, ao passo que passivo era o mesmo que feminino” (FREUD, 1976, p.57).
Freud (1976), aponta para a memória inconsciente do sonhador, que teria visto a cópula dos pais na idade de um ano e meio. Esta relação sexual teria ocorrido em circunstâncias não inteiramente habituais: a mulher curvada como um animal e o homem ereto.
Ao relatar tal lembrança da cena primária, inicialmente conferiu ao evento como sendo um ato de violência, contudo, a expressão da mãe de prazer desmentiu a impressão inicial, sendo retificada pelo reconhecimento de uma experiência prazerosa.
Tal lembrança remete a figura do lobo ereto, que sua irmã mostrava a ilustração da história: O lobo e os sete cabritinhos, figura que o amedrontava, possivelmente por remeter a memória inconsciente de seu pai ereto realizando a relação sexual a tergo com sua mãe.
O autor descreve a seqüência dos fatos por meio de reconstruções e fragmentos que se dá inicialmente por meio de uma vivência real, a observação do coito dos pais em uma posição de passividade ao observar a atividade dos pais, quando ele tinha a idade aproximada de um ano e meio.
E as conseqüências desta primeira impressão quando a criança consegue dar um significado ao que viu, na idade em que teve o sonho, aproximadamente quatro anos.
A partir disso, aparece o medo da castração, os problemas com a sexualidade e as fobias que tem a função de evitar o medo de algo terrível, o “receio” de ser devorado pelo pai. Como conseqüência, o medo do pai se transformou em fobia de lobos.

Sua ansiedade era um repúdio do desejo de obter do pai satisfação sexual – tendência à qual se deve a formação do sonho na sua cabeça. A forma assumida pela ansiedade, o medo de ‘ser devorado pelo lobo’, era apenas a transposição (como saberemos, regressiva) do desejo de copular com o pai, isto é, de obter satisfação sexual do mesmo modo que sua mãe (FREUD, 1976, p.56).

O analista aponta para a identificação do analisante com a mãe castrada e a dificuldade de se posicionar enquanto homem fálico na vida adulta.
Freud (1976), assinala que para uma apreciação mais adequada da fobia de lobos, deve-se reconhecer que tanto o pai quanto a mãe transformaram-se em lobos, muito embora a mãe ocupasse o lugar de lobo castrado e o pai de lobo fálico, o animal que subia e que portanto, posicionava-se de forma ereta, a posição ativa era o elemento causa de medo do analisante.
Enquanto criança vivenciava situações de uma posição de passividade, com propósitos masoquistas de ser castigado ou espancado. Ora desejava que seu pênis fosse tocado pela babá ora tentava provocar o pai até que o batesse.

Seu objetivo sexual passivo, deve ter sido, então, transformado em feminino, expressando-se como ‘ser copulado pelo pai’, em vez de ‘ser por ele espancado nos genitais ou no traseiro’. Esse objetivo feminino, no entanto, sujeitou-se à repressão e foi obrigado a deixar-se substituir pelo medo do lobo” (FREUD, 1976, p.57).

Para Dunker (1996), “o paciente se inclui na cena retendo a posição imediatamente anterior à construção da castração, isto é, a satisfação anal” (p.161).
Freud (1976), assinala que houve um efeito patogênico da cena primária e da alteração que a sua revivescência produziu no desenvolvimento sexual do paciente” (p.54).
O autor faz menção à vida erótica do jovem após a maturidade, ressaltando a “tendência a ataques compulsivos de paixão física, que surgiam e desapareciam, na mais desconcertante sucessão” (p.52).
Adiciona ainda, a condição atrelada ao seu amor compulsivo na vida adulta e a sua preferência pelo “coito efetuado por trás – more ferarum [a maneira dos animais]” (FREUD, 1976, p.52). Segundo o analista, este tipo postura era a única que lhe rendia algum prazer. Neste caso, a mulher precisava assumir a postura assumida por sua mãe. Possivelmente a sua satisfação sexual se dava pela sua projeção na mulher em uma posição passiva.

DISCUSSÃO DO CASO

Freud toma enquanto analisante o jovem de vinte e poucos anos, Serguéi Pankejeff que descreve seus pensamentos de infância. Em análise ocorreram inúmeras associações relacionadas à fobia e seus sintomas, colaborando para a realização da teoria freudiana a respeito da angústia em torno do complexo da castração e a organização da vida sexual do sujeito envolvendo a cena primária, suas rememorações e possíveis retificações.
Dunker (1996), cita a concepção lacaniana que denota Serguéi Pankejeff tomado em seu fantasma.
“A construção de Freud caminha no sentido de que a cena primária, olhar a relação dos pais (ad tergo), significa a castração como perda do pênis ou por deslocamento, do rabo do lobo” (DUNKER, 1996, p.161).
De acordo com o autor, há um ponto de fixação no caso do Homem dos Lobos (1918), que aponta tanto para a analidade quanto para a pulsão escópica, podendo-se fazer uma distinção da fixação anal do fantasma escópico.
O fantasma pode ser identificado na História de uma neurose infantil (FREUD, 1918), como marcas inconscientes da estrutura psíquica do sujeito.
A infância é o período de formação de fantasma, o qual corresponde a uma frase iniciada pelos pais e construída pelo sujeito. Essa construção envolve a pergunta e a tentativa de resposta a três enigmas que fundam o fantasma do sujeito, questões relativas à existência, a sexualidade e a morte, elaboração que marca a organização genital do sujeito, o corpo pulsional e a forma singular como maneja sua libido.
Seguindo a leitura lacaniana, Dunker (1996), enumera as três dimensões do fantasma: simbólica, imaginária e real. O autor menciona a presença do fantasma como: “lugar de certeza quanto à consistência do Outro e sua demanda; articulador das relações entre prazer, satisfação e gozo; posição de retenção narcísica da identificação ao objeto” (p.164).
Evidencia-se a constituição do fantasma em torno da cena primitiva, demarcando também os posteriores sintomas do analisante e o manejo clínico empregado por Freud para conduzir esta análise.
Freud (1976), menciona as etapas de transformação do material, a cena primária, a história do lobo e o conto O lobo e os sete cabritinhos, como elementos constituintes da formação do sonho.
Assinando ainda o “desejo de obter do pai satisfação sexual – a compreensão de que a castração era uma condição necessária para isso – medo do pai” (p.53).
Concluindo que os sintomas eclodiram como uma formação do inconsciente e o sonho como representante do conflito edípico, pois para o analisante era inconcebível admitir o desejo pulsional erótico direcionado à figura paterna, encontrando na fobia uma tentativa de resolução de conflito psíquico.

REFERÊNCIAS

FREUD, S. (1918). História de uma neurose infantil. In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol.XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

DUNKER, C. Lacan e a clínica da interpretação. São Paulo: Hackers, 1996.

Notas pessoais sobre a maternidade


* Toda mulher deveria ter a coragem de encarar essa transformação!
* Se o fizer, saiba que como toda escolha, inclui ganhar _um serzinho maravilhoso_ que diz muito da mãe, do pai dele e das famílias materna e paterna e também perder.
Tem-se que abrir mão do próprio narcisismo para enfrentar essa empreitada: maravilhosa, mas também cheia de surpresas com as quais jamais imaginou... Desde beijos jogados ao ar, às febres inusitadas.
* Você vai mudar! Seu casamento vai sofrer transformações permanentes e a relação com seu esposo também. O casal que dará o tom dessa transformação!
* Inicialmente saiba que a falta de sono e a própria mudança de "status": pai e mãe, já faz um rebuliço grande, mas nada que o tempo e a elaboração não acomodem.
* Não! Não tem como se preparar antes! Ler livros ajuda, mas não há uma cartilha que nos impeça de sentir certa dose de sofrimento com as mudanças ocorridas. Isso faz parte do processo de transformação e de crescimento.
* Antes do filho nascer, é muito difícil se imaginar abrindo mão de tudo aquilo que cremos ser parte constituinte do nosso ser: seja trabalho, estudos ou vida social. Mas quando o bebê chega e nos deparamos com tamanha fragilidade e necessidade de carinho, cuidado e afeto, não é difícil esquecer (mesmo que apenas inicialmente) da vida profissional e inclusive pessoal.
* É como se precisássemos abrir mão por um tempo de todos os outros papéis, para aprender a ser mãe. Muito está no nosso instinto, mas exige tempo e doação aprender a conhecer a cria e se deixar conhecer por ela.
* Antes do bebê nascer é comum nos imaginarmos dando conta de TUDO que fazíamos antes da maternidade, apenas somando o fato de que seremos também mães.
* Natural não se imaginar abdicar do trabalho por um tempo ou dos passeios, jantares e vida social. Mas depois do parto, algo se transforma dentro da gente... É como se precisássemos de um tempo para elaborar psiquicamente todas as mudanças. É tanto aprendizado e tantos significados novos para administrar, que acabamos abrindo mão, mesmo que só por um tempo, não porque alguém pediu ou disse que TEM que ser assim, mas porque de fato, esse tempo é necessário. Não para o outro, mas para gente mesmo.
* Corpo: quando disse inicialmente que é preciso abrir mão do próprio narcisismo, implica em poder doar-se ao outro e saber que a partir da data da concepção, você jamais pensará apenas em si mesma. Desde o que ingere, enquanto o bebê ainda está no útero ou em fase de amamentação até como administra seu tempo ou se dá ao direito de ter prazer, depois que está maiorzinho.
Mas o seu corpo pode voltar a forma e depois de um tempo é natural voltar a se sentir bonita e feminina, não apenas uma mamífera estilo Discovery Channel (como EU me senti no final da gestação e primeiros meses de amamentação).
Tentei desviar daquelas reflexões clichês, que tratam da maternidade de forma romanceada. Confirmo que os ditos populares são verdadeiros e concluo que as teorias de Psicologia e Psicanálise também. Então desvio dessas duas linhas, pois troca de experiência implica em relatar a própria subjetividade.
* No entanto, faço um adendo: A Psicanálise diz que quando nascemos, temos uma dívida com nossos pais, sempre me senti assim... E que essa dívida só é paga quando temos um filho. Quem se torna mãe ou pai entende o porquê.
* Outro adendo clichê: sim, vale muito a pena! O ser humano é o animal que dá mais trabalho para criar e no entanto, governa o mundo! Então, isso já diz muita coisa.
* Voltando as notas: você vai descobrir uma força interior que nem sabia que existia!
Talvez essa energia, depois de circular, digo: sair da relação mãe e filho, pode ser recanalizada de maneira produtiva no trabalho. Parto do pré-suposto que a maternidade deixa as mulheres mais confiantes e decididas. Quer potência maior que gerar vida dentro do próprio útero?
* Curiosidades: Você pode virar uma verdadeira Leoa! Esse é um efeito colateral da maternidade... Vez ou outra vai se pegar amaldiçoando os vizinhos que chegaram de salto alto, arrastando cadeiras às 3 hrs da manhã e acordaram seu filho. Você vai brigar mesmo com aqueles que você ama, por motivos aparentemente banais e eles vão te entender.
* Para quem pretende ser mãe: prepare-se! A vida está prestes a virar de ponta cabeça e não se surpreenda se você gostar! Pense que é uma chance em um milhão de se reinventar, sendo a mesma pessoa, mas vendo a vida sob uma ótica completamente diferente!

domingo, 12 de junho de 2011

Dia dos Namorados

Data para celebrar encontros, apesar dos desencontros.






O dia dos namorados é um ritual de celebração, onde os casais reafirmam a si mesmo e ao parceiro os sentimentos atribuídos a relação.
Assim como em outras datas comemorativas, como natal e aniversário, acaba sendo um dia propício a reflexão tanto de quem está em um relacionamento quanto daqueles que gostariam de ter um parceiro.
Carlos Drummond de Andrade afirma que não ter namorado é sinônimo de tirar férias não remuneradas de si mesmo. Para o escritor, só não tem um amor quem não sabe o gosto de namorar.
Atualmente homens e mulheres procuram análise, muito embora com queixas distintas. Quanto a este aspecto, existe uma espécie de paradoxo entre o desejar e a possibilidade de se colocar enquanto objeto de desejo do outro.
Percebe-se que o lugar reservado a mulher e aos homens vem sofrendo mudanças, se antes cabia as mulheres se fazer de semblante para provocar o desejo no homem, atualmente observa-se uma inversão.
As mulheres bem poderiam dizer que as flechas do lendário cúpido devem estar vindo com defeito de fábrica, porque apesar de suas frustradas tentativas, encontram dificuldades em encontrar o alvo ideal.
Aí apelam para Santo Antônio, endereçando outra espécie de reclamação, sem parar para refletir se o problema não está no alvo, nas fechas ou cúpido, mas de quem ocupa a posição de arqueiro.
Os homens, recebendo flechadas das mulheres, confessam não saber o quê fazer para tomar estas mulheres, tão decididas de seu alvo, enquanto objeto de desejo.
Como se envolver emocionalmente e desejar uma mulher que se entrega de bandeja enunciando seu desejo sexual de forma a agir como se fosse um homem?
Esta atuação aponta para uma posição explícita de desejante que até então era exclusiva do homem. Como conseqüência os afasta pela própria impossibilidade da mulher se posicionar enquanto amada.
Com esta inversão, o sexo feminino cada vez mais revestido de potência fálica, priva o sexo oposto de todo processo da conquista, que possibilitaria que o homem pudesse vir a se envolver emocionalmente, praticando a ação do verbo amar enquanto o sujeito e não objeto.
No século XXI, observa-se a minimização das diferenças entre homens e mulheres. KEHL (1997), discorre a respeito desta inversão, afirmando que a distância entre os sexos encontra-se no limite da mínima diferença.
A partir da emancipação sexual feminina, as mulheres expressam seu desejo, conquistando um espaço que antes era próprio do universo masculino. Tateando um novo território, buscam cultura, independência financeira, possibilidade de escolha sexual e quantos relacionamentos forem necessários na busca de encontrar o parceiro ideal.
É importante lembrar que a busca de atributos fálicos da mulher se articula a uma tentativa de incrementar a função de sua feminilidade, justamente para ser mais digna do amor do homem, mas nem sempre este plano triunfa.
Enquanto as mulheres almejam ser amadas e desejadas, buscando sucesso profissional e intelectual como incrementos para sua feminilidade e poder de conquista. O homem indaga-se como desejar uma mulher que revela seu desejo de forma tão explícita. Sem a tarefa da conquista, o desejo fica sem espaço, provocando uma série de repetidos desencontros.
Diante desta corriqueira repetição, escutamos a frase: “_A fila anda”. Como se o problema estivesse na escolha do parceiro eleito, convencendo-se de que o próximo será capaz de compreendê-la e amá-la tal como sempre idealizou. Este plano é intangível, especialmente por ser essencialmente imaginário.
A fila anda, o sujeito não se implica e tudo segue de maneira automática. Sem questionamentos as mulheres funcionam de forma a cada vez mais tamponar a falta, ao competir com os homens os atributos fálicos.
Já os homens, muitas vezes insatisfeitos se indagam: o que possivelmente aquela mulher “tão completa” pode querer de mim?
O enunciado já responde: ela já está completa. Então onde está o espaço para o homem?
As mulheres buscaram a liberdade, mas parecem ter perdido sua referência, transitando como o pêndulo de um relógio, de um ponto para o seu oposto. Da completa dependência que as obturava para a impossibilidade de escolher de quem querem depender, ocupando o lugar de causa de desejo.
Pelo receio de se perder no outro, escolhe-se não se satisfazer com ninguém. Por outro lado, seguindo a linha de Drummond de Andrade, tira-se "férias não remuneradas de si mesmo" e isso causa sofrimento.
A ambivalência presente no sujeito feminino as leva a reclamar das dificuldades amorosas, ao passo que se regozijam ao relatar sua potência fálica sintomática, sem poder ainda relacionar sua identificação ao sexo masculino como um possível impedimento ao laço amoroso.
No discurso aparece que não há parceiro bom o bastante, muito embora a procura seja exaustiva. Contudo, o conteúdo latente é justamente a dificuldade no reconhecimento da própria falta, sendo graças a esta constituição subjetiva que existe a possibilidade de encontrar lugar para o outro.
Vale ressaltar que não se trata de propor um retrocesso, que as mulheres abram mão de seu trabalho e conquistas. Muito pelo contrário, o quê se propõe é um ponto de equilíbrio, onde exista a possibilidade de ir ao encontro daquilo que é do desejo: na esfera profissional, social e pessoal, sem precisar ocupar uma posição que não lhe diz respeito, dando mais lugar a feminilidade.
Espera-se que homem e mulher possam fazer trocas, preservando no amor o lugar da falta. Os relacionamentos saudáveis são aqueles que mantêm uma dependência suficiente para se manterem unidos, mas ao mesmo tempo, permitem o crescimento individual e a privacidade necessária para que o casal se mantenha saudável.
Apenas deve-se atentar ao fato de que o lugar de cada um deve ser respeitado, reconhecendo aquilo que é de fato diferente, não só anatomicamente como psiquicamente.
Diante dessas novas configurações, os homens se deparam com o desafio de encontrar um espaço ao lado de uma mulher que não só compete como também rivaliza com ele, tendo dificuldades em se sustentar diante desta falta de lugar sem ter sua masculinidade ameaçada pela parceira que se coloca enquanto rival.
Diante desses desencontros, homens e mulheres relatam a insatisfação quanto a dificuldade de permanecer em um relacionamento estável.
Atualmente existe um patamar de exigência enorme, os namoros quando assumidos, muitas vezes tem a chamada "data de validade", justamente o tempo em que se percebe que a pessoa não corresponde ao ideal.
Inicialmente, é como se o sujeito se apaixonasse por si mesmo, a medida que projeta no outro características que idealizou em um parceiro e que a princípio só existia em seu imaginário.
Passada a fase de se conhecer, aparece a pessoa tal como realmente é, sendo justamente neste momento em que a data de validade expira ou pode ser renovada.
Se renovada, é a fase passível de identificar aspectos amados e odiados no outro, reconhecendo e aceitando os pontos onde o sujeito não consegue ver a si mesmo de forma espelhada no parceiro.
Neste momento pode-se optar por investir na relação, que traz muito prazer, mas também exige flexibilidade e o constante exercício de lidar com as alegrias e frustrações inerentes a vida a dois.
Rubem Alves faz a analogia do jogo de tênis para descrever as relações que tem como objetivo derrotar o parceiro, procurando seu ponto fraco para fazer o corte. Neste exemplo ambos ocupam a posição ativa, competindo pelo mesmo lugar. Os "jogadores" não se dão conta que ao fazer o corte, alcançam algo equivalente ao gol contra do futebol, pois minam a própria relação. Enquanto que no relacionamento estilo frescobol, espera-se que ninguém perca e se acontece um erro, o outro faz o possível para contornar, pois é um jogo onde o prazer está justamente na troca. Nesta relação homem e mulher não são rivais, mais parceiros que ocupam uma posição de forma a conferir ao outro seu devido lugar, viabilizando assim o intercâmbio: o relacionamento.
Não se espera que a relação corresponda ao ideal romântico, onde o espírito poético e a semelhança do casal asseguram a ausência de discussões, isso provocaria um grande “sufoco emocional”, onde não se pode mais distinguir onde um começa e o outro acaba.
A vida a dois se assemelha muito mais a prosa do que a poesia. Os desentendimentos podem ser saudáveis se o casal tem a possibilidade de dialogar. Se na distribuição de energia psíquica não há espaço para a conversa, há de se questionar se ainda há relacionamento.
Até a discussão pode ser lida como um bom sinal, pois significa que ambos estão investindo na relação. Se existe diálogo, há grandes chances de que exista amor, onde a fala aparece como tentativa de preencher a falta, causa de desejo.
Quando o casal encontra formas de chegar a um acordo, a relação é então reavivada e reconfirmada. Daí a importância do dia dos namorados, onde se pode comemorar a possibilidade que o casal encontrou de tornar um encontro possível. Portanto, o amor perfeito é justamente aquele capaz de abarcar e aceitar as imperfeições.
Lacan (1992), questiona a viabilidade de ocorrer um encontro entre pessoas que não tem falta. Para que o desejo se mantenha é preciso preservar no outro o lugar da falta, essa operação só é possível se o sujeito puder reconhecer a falta em si mesmo.
Em uma época onde há o imperativo de igualdade e certa negação das diferenças psíquicas entre os sexos, tem-se como desafio, reavaliar a forma como cada sujeito lida com suas diferenças.
O que mantém a mulher e o homem juntos é o laço simbólico, que pressupõe que ambos são movidos pela falta: “o homem busca saná-la através deste objeto que ele crê ser capaz de preenchê-la, representado pela mulher; esta, por sua vez, busca no corpo do seu parceiro e no poder simbólico que ela própria atribui, o falo que lhe falta” (TEIXEIRA, 2007, p. 84).
O autor acrescenta que a possibilidade de um laço sustentável entre os casais passa pela possibilidade da mulher reconhecer o poder do falo no homem.
Deve-se reconhecendo a falta no outro e também em si mesmo, bem como as diferenças entre homens e mulheres. De onde deriva a possibilidade de um encontro, mesmo que faltoso: repleto de frustrações, prazer e satisfação.
As mulheres precisam compreender que suas armas não estão nos atributos fálicos, mas em sua feminilidade, sensualidade e possibilidade de se fazer desejar, permitindo que o homem a conquiste, à medida que pode disponizar a ele seu devido espaço.
Diante de tantos desencontros, os encontros possíveis derivam da possibilidade de fazer laços simbólicos com quem se escolhe amar, mesmo que de forma faltosa e imperfeita, estando justamente no ponto de falta: o enamoramento perfeito.

REFERÊNCIAS
LACAN, J. O Seminário. Livro 8: A Transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992

KEHL, M. A mínima diferença. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

TEIXEIRA, M. A feminilidade nas dimensões real, simbólica e imaginária. In: Revista da Associação Psicanalítica de Curitiba. Vol.1, nº 1. Curitiba: APC, 1997.

http://www.rubemalves.com.br/tenisfrescobol.htm (Acessado em 05 de junho, 2011).

http://pinap.sites.uol.com.br/drummond.htm (Acessado em 05 de junho, 2011).

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LINK DA ENTREVISTA DO DIA DOS NAMORADOS NA REDE T.V.+

http://www.redetvmais.com.br/entrevista/video/372.html





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Psicóloga Caroline Moreira de Oliveira
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